Historia

Um pouco da história dos Guerreiros do SOL MC ou, pelo menos, o que precisa ser contado.

Voltando de São Paulo, onde estava morando havia cerca de cinco anos eu levei junto minha moto e chegando a Fortaleza, Ceará, decidi que iria criar um MC. Na mesma época eu estava lendo um livro chamado Guerreiros do Sol, de Frederico Pernambucano, um especialista na história verdadeira do cangaço e a sua originalidade no mundo. Nada existe de igual! Pernambucano consegue traçar pelas mais de 300 páginas de seu livro o perfil do cangaceiro que muito se assemelha a um Ronin. Os Ronins viviam no Japão da Idade Média e eram samurais sem dono. Excelentes guerreiros e mestres, os Ronins eram quase que sagrados. No Brasil, mais precisamente no Nordeste, na área que abrange boa parte dos estados do Ceará, Rio Grande do Norte, Paraíba, Pernambuco, Alagoas e Sergipe, os Guerreiros do Sol reinaram soberanos por muitos anos.

O ponto de partida eram os detalhes da indumentária, o isolamento do Nordeste Brasileiro no início do Século XX e a forma como se organizavam. Ficamos fascinados com tudo que lemos a ponto sugerir batizar o MC com o nome de Guerreiros do Sol. O perfil, as motivações, as verdades e mentiras daqueles que fizeram da região aonde a lei não chegava e o senhor era chamado de coronel: A Terra dos Guerreiros do Sol. Decidimos então homenagear a cultura deixada por eles: o xaxado, as roupas, o conhecimento, as táticas de guerrilha (utilizadas hoje por nossos militares, inclusive contra guerrilha urbana), a inteligência, a teimosia em sobreviver e viver em um ambiente hostil, diferente de tudo no mundo. Sua poesia, seus perfumes, bebidas, amores, código de honra e encantos. Sua coragem! Uma das motivações que nos levaram a fazer essa homenagem foi ter a honra de relembrar um pouco dessa história carregando na motocicleta a marca daqueles que sempre foram Guerreiros do Sol. Gostemos ou não, essa é uma parte muito rica da nossa história, que resgatamos sem os preconceitos do passado. Existe uma unidade do Exército Brasileiro (Batalhão de Caatinga) cuja a indumentária é basicamente a utilizada pelos cangaceiros e eles desfilam no 7 de Setembro e são muito apaludidos.

A logo que foi criada e junto com ela toda uma programação visual, tinha como objetivo montar um MC modernizado, porém respeitando as tradições dos bons motoclubes sem perder a cara Out of Law, mas dentro do espírito AMA-US.  O MC começou com quatro pessoas: Sucupira, Valdemar, Ivan e Danilo e hoje são 18. Os quatro motociclistas nutriam, além da paixão pelo motociclismo, o desejo mútuo de reunirem um grupo de amigos para passeios e viagens de moto, a partir de uma lista de proprietários de motos Mirage da Kasinski (na época), e assim nos reunimos e então formamos o núcleo fundador de um motoclube que foi fundado oficialmente em 15 de dezembro de 2004.

As reuniões do grupo eram semanais para falar de amenidades, contar histórias, falar de motos e organizar próximas viagens. Em 2005 os Guerreiros do Sol fundaram na cidade de Iguatu – a 380 km de Fortaleza – a primeira facção de um motoclube da história do Ceará. Os poucos integrantes formaram uma família. Fizeram uma grande festa de aniversário – coisa inédita na época em se tratando de MCs de capitais do Nordeste. Apareceram em vários programas de TV e em um deles entraram ao vivo, no estúdio, com a apresentadora na garupa. Participam de todas as campanhas que surgem: filantrópicas, campanhas de educação no trânsito, educação sexual, Fortaleza Motorcycle, doação de sangue, etc. Fizeram um mini-encontro para batizar a facção que era formada por outros grandes motociclistas do local e que fechou o ano com chave de ouro, com a doação de 600 brinquedos e 80 cestas básicas a famílias carentes e abrimos o desfile militar do ‘7 de Setembro’ a convite do Exército Brasileiro, pois boa parte dos Guerreiros do Sol havia servido a esta arma. Esta foi a primeira vez que um MC fez isso no Brasil.

Uma das marcas dos Guerreiros do Sol sempre foi a organização e a disciplina nas viagens em grupo. A formação era impecável até mesmo para estacionar e sair com as motos. Chamava a atenção e havia todo o cuidado de fazer muito bem feito a ponto de o grupo dar nota para a formação. As mulheres eram um capítulo à parte e são chamadas de Amazonas. Elas ajudavam na recepção de todas as garupas que chegavam com os novos membros. Éramos um grupo formado por casais de motociclistas, tanto que fizemos uma Guerreira do Sol, a Graça, esposa do Guerreiro Pablo. Uma curiosidade: Nos Abutres, as garupas são chamadas de carniça… Acredito que há um duplo sentido nesta nomenclatura (risos).

A marca do MC guerreiros do Sol foi criada a partir de uma pesquisa visual que tinha como objetivo identificar elementos que permeiam duas culturas aparentemente incompatíveis: a Cultura do motociclismo e a cultura nordestina. Durante a pesquisa foi percebido que estes dois ambientes tem alguns elementos semelhantes.  A caveira que faz parte da marca e é um elemento comum à cultura do motociclismo, ganhou um chapéu de cangaceiro como característica nordestina e os pistões representam as motocicletas e sua força. Todos estes elementos ganharam um traço rústico e típico da arte nordestina que é a xilogravura. O círculo amarelo no fundo representa o sol que faz alusão ao nome do moto clube e por ser a luz algo marcante no Nordeste e nas suas estradas.  O design do site também buscou elementos de interseção entre Nordeste e Motociclismo – o asfalto de primeiro fundo e o couro cru, típico das roupas dos cangaceiros como segundo fundo.

O MC desenvolveu estatuto, manual de deslocamento e manual de identidade visual  e ainda realizavam periodicamente provas para avaliar os conhecimentos a respeito do estatuto, das regras e normas de segurança, leis de trânsito e deslocamento em grupo, inclusive relacionamento interpessoal. Para ser um Guerreiro do Sol era necessário antes passar por uma etapa de avaliação que durava no mínimo seis meses. Primeiro era necessário vir apresentado por outro Guerreiro batizado. O pretendente ou aspirante recebia o nome de Jagunço. Seis meses depois seu nome será posto em votação e se aprovado por unanimidade ele seria aceito como apto a ser batizado e nesse período era um ‘Cabra da Peste’. O batizado sempre ocorre na data de aniversário do MC ou em uma ocasião especial como o aniversário da Facção. O batismo é feito pelo padrinho que pede que seja lido o juramento o Guerreiro do Sol que é: “A estrada como história. O Céu como testemunha. O horizonte como desafio. A vida como um prêmio de Deus.” Depois disso derramam cerveja na cabeça do novo Guerreiro.

Mesmo adotando todo cuidado de andar em formação, usar corretamente os equipamentos de segurança, de cuidar do companheiro que está atrás (o ala) e não termos registrado nenhum acidente em viagens oficiais do MC, perdemos o irmão Thelmo Maia Nunes em um acidente na BR 116 onde ele foi colhido, viajando sozinho, por um carro vindo na contra-mão. Abatido o grupo tratou de homenagear o companheiro que era professor universitário e preparador de atletas olímpicos de Iron Man Brasil. Thelmo era apaixonado por motos, tanto que morreu indo em viagem a trabalho quando fiscalizaria uma turma de pós-graduação em Russas, Ceará.  Os Guerreiros do Sol e todos os MCs e MGs de Fortaleza organizaram um cortejo, em formação de escolta com apoio de viatura do Batalhão de Choque e da P.R.E (que sempre foi apoiado pelos MCs nos seus eventos, pois alguns policiais são motociclistas). No momento da descida do caixão todas as motos foram ligadas e realizamos um minuto de aceleração máxima numa última homenagem ao Guerreiro Thelmo que deste dia em diante recebeu o nome de Guerreiro do Céu.

Por Luis Sucupira, membro fundador.